domingo, 31 de outubro de 2010

“... O ESTADO LAICO E A DITADURA CRISTÔ

                                                             Por Tav Rosh Benyakóv

          Tenho recebido e-mails, correntes, vídeos e outras bobagens religiosas que invadem arbitrariamente os meus espaços virtuais com intuito de reagir contra as novas Leis que estão tramitando no Congresso Nacional.
Este movimento reativo é um evidente reflexo do preconceito e da discriminação vorazes da Igreja, que continua tentando ferir a liberdade da nação. Não podemos esquecer, contudo, que a Igreja está entre os piores modelos de governo da história da humanidade, igualando-se, apenas, ao nazismo de Hitler. As Cruzadas, Inquisições, Reformas, Contra-reformas, Anticientificismos, Anti-semitismos, e Nazismos - que dominaram a Idade das Trevas e disseminaram todo tipo de puritanismo hipócrita e castrador da natureza humana - são testemunhos impiedosos que depõem contra a moral do Cristianismo e demonstram a sua ilegitimidade governamental.
Ou seja: Nesta nova era, onde busca-se enfatizar os direitos humanos e individuais, a cidadania, o construto identitário do ser, a liberdade e a autonomia que ajudam a reafirmar a democracia e a laicidade do Estado, já não há mais espaço para uma nova ditadura cristã, ou de qualquer outra religião. O Império da Igreja precisa ser encarado como uma aterrorizante e chocante experiência do passado que não deve mais ser reproduzida em pleno século XXI. Desde o Iluminismo, o ocidente tem conseguido libertar-se das opressões cristãs... Graças a Deus, e aos homens de boa vontade, este não é mais um país cristão, mas sim um Estado laico! Não é mais um governo onde se utiliza o nome de Deus em vão, somente para impor a guerra, a tortura, a morte, a dominação, a exploração, a apropriação de riquezas, a discriminação... e toda sorte de insanidades que buscam somente a manutenção de uma inútil casta sacerdotal, nutrindo apenas seus interesses políticos e econômicos.
Estamos tentando construir um mundo plural, mais tolerante, mais respeitoso, onde, pela primeira vez na história, o indivíduo passa a existir como um ser pleno, que pode e deve ser realizado em suas necessidades e anseios pessoais. A tirania da Igreja quer que não-cristãos ajam segundo a moral cristã, que os demais religiosos obedeçam a doutrina cristã, que seres-livres ajam como escravos, que seres-pensantes ajam como ignorantes, que cidadãos legítimos ajam sempre como seres colonizados e aculturados pelo Cristianismo... A igreja e os cristãos ainda sentem-se como donos do mundo e da verdade, com privilégios sobre os demais. Já vimos o resultado destas medidas déspotas na Idade Média: ou se vivia obrigatoriamente como cristão ou morria nas santas fogueiras da inquisição. Não existia direito à mulher, ao negro, ao judeu, ao muçulmano, ao homossexual, ao deficiente físico, ao gnóstico, ao livre pensador, ao cientista, ao ateu, ao cidadão, ao indivíduo... Todos tinham que ser produto do mesmo barro estéril.
            Estas medidas desumanas não podem ser reafirmadas em nosso tempo, sob outras máscaras, ou sob outros argumentos, ou retornaremos à estaca zero e ao caos. Não somos cidadãos romanos, não somos protestantes alemães, não temos que ter uma religião importada. Somos brasileiros, laicos, e não precisamos viver segundo o pesado jugo de um Império agonizante que recusa-se a morrer. Um Império que sacrifica novas gerações com suas ideologias letais, ao invés de ceder ao amor de Deus que aceita a todos sem diferença. Um Império que tornou-se o maior ícone da hipocrisia global, sem precedentes históricos. E apesar de eu ser a favor da liberdade religiosa, entendo que a Igreja, enquanto entidade política e social, deformadora de opinião, precisa ter suas arestas imediatamente aparadas antes que seja tarde demais. Por isto, jamais vote em políticos cristãos! Diga não à nova modalidade de guerra fria inaugurada por eles... Não entregue o destino do nosso país para uma nova e sutil ditadura religiosa, que já está tentando brotar...
Diga sim à liberdade de escolha! Diga sim ao direito de ser e de viver! Diga sim à pluralidade e à tolerância, ao amor e ao respeito mútuos! Diga sim à igualdade... Diga sim às novas Leis brasileiras  (PNDH-3)  que também delimitam o poder da Igreja e erradicam o abuso do poder cristão!  (Acesse também: http://escritoralef.blogspot.com/)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

...AFINAL, QUEM É DEUS?!

Por Tav Rosh Benyakóv

...Primeiramente, quem é o homem? Quantas diferentes ciências poderiam traduzir, em palavras, este ser tão plural e paradoxal? Como avaliá-lo do ponto de vista tecnológico, biológico, social, existencial, emocional? Como delimitar suas habilidades, criatividades, potencialidades? Como mapear o perfil de sua personalidade?  Quantas variantes poderiam ser consideradas? Como compreender a ilimitude de si mesmo? Como interpretar ao próximo, bem como as controvérsias de suas culturas, etnias, pensamentos, ações e reações? Que ferramentas seriam necessárias à análise? As respostas seriam igualmente verdadeiras, infalíveis e incontestáveis? Todas as cátedras construiriam a mesma tese? ...Cada indivíduo tem sua digital e suas especificidades genéticas, sendo oriundo de diferentes contextos histórico-sociais.  Logo, como seria possível sintetizar, ou generalizar, a essência da natureza humana? Os gênios e os intelectuais, dos diferentes ramos científicos, a cada dia fazem novas descobertas diante do infinito desafio... e sabem que pouco sabem!

Todavia, ironicamente, há quem queira propor teses irrefutáveis sobre Deus! Há criaturas que desejam compreender plenamente o Incriado! Seres finitos tentando conceber o infinito! Espécimes efêmeros tentando conter o atemporal. Cegos tateantes que consideram-se doutores em estética, surdos que intitulam-se críticos musicais, símios que imaginam-se teólogos...  Mas são apenas insanos! E é preciso ser ainda mais tolo para dar-lhes crédito! Afinal, quem é o homem – que ainda não conhece perfeitamente a si mesmo, a sua própria natureza e habitat – para julgar-se capaz de definir a Deus? O cão é quem pensa conhecer o seu dono pelo cheiro! Mas o que seria o homem para o cão, que o distingue tão bem dentre os estranhos? É aquele que o nutre de comida e carinho? Que o acorrenta? ...Ele nunca saberá conceituar profundamente o seu dono, nunca entenderá a grandeza do universo humano... Alguém já disse que os cães pensam que o homem é seu escravo: basta latir para ser servido! E nós, que sequer conhecemos o cheiro de Deus, sequer o vemos, sequer o tocamos, como poderíamos delimitá-lo? Como poderíamos escravizá-lo? Basta latir para que Ele nos atenda e nos sirva? Ele não pode ser dissecado, posto numa lâmina macroscópica, nem questionado num divã... Provavelmente habita noutro mundo, noutra dimensão, noutra realidade...

Não sabemos quase nada sobre o homem, o dna, a folha de uma árvore, átomo, vírus, estrelas ou galácteas, mas queremos adivinhar os atributos do criador do universo? Queremos defender teses teológicas ou doutrinas canônicas? Por causa das insanidades teológicas há tantas religiões, templos, dogmas, guerras e cemitérios... Se ninguém surtasse na busca da verdade transcendental e do poder, haveria menos leis alienadoras e escravistas... mais liberdade e paz! Todos seriam igualmente livres-adoradores do Deus indizível! Na cultura judaica, nem mesmo Deus ousou definir a si mesmo! Diante de Moisés, quando indagado, Ele apenas respondeu: “Sou o que Sou!”. Ele não denominou-se azul ou verde, bom ou mal, bonito ou feio... não utilizou-se de adjetivos castradores e delimitadores, nem de subterfúgios da razão, nem formatou-se por meio de uma caricatura. Antes, preservou a plenitude de sua identidade, imperscrutável e inenarrável, na definição do verbo “ser”.  Deus é o que é, o que quer ser, o que sua natureza divina o permite que seja. Não o entenderíamos jamais! Assim como o cão não perceberia nada além do hálito, caso quisessem convencê-lo por meio da retórica!

Deus é Deus – e isto é o que importa! Se é aquele que nos alimenta ou nos acorrenta, ou se é livre e nos emana liberdade, ainda não sabemos. Deus é indizível e isto me fascina! Pois se não consigo compreender um simples inseto, e mesmo assim pudesse compreender a Deus, isto o tornaria inferior ao inseto e a mim próprio. Se Ele fosse tão simplório – tão contraditoriamente conceituável e absurdamente definível pela limitação empírica do intelecto humano -  eu não mais poderia chamá-lo de Deus. A inacessibilidade e a indefinibilidade de Deus é o que o torna superior e verdadeiramente divino! Creio que Deus é Deus porque não posso esmiuçá-lo e explicá-lo, nem torná-lo análogo a nenhuma outra criatura! E, tal como um cão, posso apenas senti-lo e amá-lo, aceitar seu zelo, confiar em sua proteção, perceber seu amor e sua divina supremacia... Mas a minha natureza humana não me permite compreendê-lo! Ele não cabe em minhas elucubrações mentais e nem pode ser recriado ou forjado em pretensas teorias teológicas, como se fosse medíocre ídolo de barro esculpido pelas mãos de um exímio artífice! Deus é Deus, simplesmente Deus -  e somente por isto o adoro! Baruch hashem!    (Acesse também: http://escritoralef.blogspot.com/)



quarta-feira, 20 de outubro de 2010

JESUS - UMA ERA DE FARSA


“O JESUS HISTÓRICO EM SUA ORIGEM JUDAICA”
                                                     Por Tav Rosh Benyakóv

Discorrer sobre Jesus pode ser demasiado delicado, complexo e contraditório. Pois não é possível determinar que ele tenha sido um ser real, encarnado, com vida social que possa ser reconstituída de forma precisa e histórica. Por outro lado, tudo o que dizem sobre ele, bem como tudo o que tem sido produzido e pregado sob argumento de sua possível existência, influenciou radicalmente a sociedade por dois mil anos. Sendo assim, o Jesus histórico só pode ser estudado e avaliado por meio dos acontecimentos que evocam seu nome e seus valores, capazes de gerar concretas reações no cenário social. Ou seja, entendo que o Jesus histórico é produto do imaginário coletivo - plural e controvertido – ora construído, materializado e manipulado no decorrer da história.
Mas que Jesus histórico será discutido: O da expectativa messiânica judaica, oriunda do cativeiro babilônico? O essênio? O Mestre da Justiça? O rei? O sacerdote?  O eremita ascético? O rabino fariseu? O herege, profano e reacionário que foi condenado à morte por justiça? O que se casou com Maria? O que teve relações sexuais com João? Aquele narrado no cânon cristão ou nos apócrifos? O helenístico? O gnóstico? Ou aquele deificado e forjado para ser dominador romano? Mas romano ortodoxo ou católico? O mesmo Jesus que legitimou a inquisição universal e o pogrom russo? Ou o Jesus também anti-semita, reformado, e luterano, que serviu de base ao protestantismo alemão e nazista? Ou o Jesus que motivou o selvagem capitalismo europeu e americano? Mas deixaria de ser histórico o Jesus mítico, e místico, produzido pela coerção social das tradições imperialistas cristãs? E o Jesus cardecista e esotérico? E o Jesus arquetípico de Jung? Ou o Jesus da experiência pessoal, ora produto da esquizofrenia e demais patologias psíquicas, tal como a fraude do inconsciente? Ou o Jesus mercenário, manipulador, curandeiro, charlatanista, que vende a salvação nos movimentos neopentecostais contemporâneos? Ou, quem sabe, o Jesus imaginativo, lendário, fabuloso e literário que inspira adesões político-partidárias ainda hoje? Sob que perspectiva é possível avaliar este personagem-curinga, que respalda o bem e o mal, a ordem e a revolução, a paz e a guerra, a dominação e a liberdade, a fé e a razão, variando de acordo com a época, grupo social e interesse político de quem o defende? Quem é este ídolo plástico, sempre remodelado pelas mãos dos artífices-ideológicos que trabalham para a crescente legitimação e manutenção do poder? Quem é este ídolo de barro que é vivificado, adorado e imortalizado pela alienante crendice das massas?
Ao focar a atenção somente no período contextual do segundo Templo de Jerusalém, por volta de 515 a.e.c até 70 e.c, percebe-se que a fé judaica estava dividida em diversos segmentos: samaritanos, saduceus, escribas, fariseus, essênios, zelotas, macabeus, herodianos, sicários, caraítas... e, por fim, cristãos. Nota-se, a partir desta introdução, que o judaísmo nunca foi uma religião homogênea, detentora de um só dogma. Ao contrário, sempre foi plural e, às vezes, os judeus discordavam quase plenamente em suas crenças à medida que seguiam de uma facção à outra. Em função disto, segundo o historiador Flávio Josefo, em meados de 150 a.e.c, um grupo de ascéticos separatistas, denominado essênio, migrou ao deserto por encontrar-se insatisfeito com a religiosidade, política e helenismo predominantes em Israel. Os essênios dividiam-se em grupos de 12, vestiam-se de branco, usavam barbas, eram celibatários, acreditavam em cura pela imposição de mãos, aboliam a propriedade privada, eram vegetarianos, realizavam batismos, praticavam o ritual da ceia com vinho e pão, expulsavam demônios, acreditavam no Bem e no Mal, em filhos da Luz e das Trevas, não aceitavam sacrifícios de animais, desprezavam o Templo, acreditavam na vinda de um messias libertador, valorizavam as escrituras sagradas e dedicavam-se a estudá-las – sendo estas também as principais características de Jesus e seus discípulos, conforme narrativa dos Evangelhos.  Assim, possivelmente, os essênios teriam lançado as principais bases teológicas do cristianismo primitivo – e ainda judaico. E mais que isto, pois, talvez, tendo sido o Mestre da Justiça um tipo de messias judeu - dentre tantos outros que já existiram - fora progressivamente mitificado pelos primeiros gnósticos-cristãos ao ponto de, séculos mais tarde, também ser usurpado e deificado pelo Império Romano. 
Independente de quem, exatamente, tenha sido o Jesus histórico, é notório que ele foi filho do judaísmo e representava exclusivamente as expectativas sociais, políticas, religiosas e messiânicas de determinados segmentos israelitas. Inclusive os Evangelhos (escritos entre 70 e 90 da e.c) testemunham que os pais de Jesus e seus discípulos eram judeus, da linhagem de David; ele freqüentava as sinagogas, o Templo, e colocava-se a reinterpretar livremente a Torá e as Escrituras, tal como um rabino fariseu; seus ouvintes eram basicamente israelitas; e mesmo Paulo, que foi o maior propagador de Jesus, era fariseu convicto, criado aos pés de Gamaliel, detendo profundo conhecimento da Lei judaica; e, segundo os Atos dos Apóstolos - apesar do proselitismo e da contínua conversão de gentios ao judaísmo - o tema do possível messianismo de Jesus era sempre discutido entre judeus e dentro das sinagogas. Mas o conceito judeu de messias era simplesmente o de "libertador e restaurador político”. Jesus nunca foi considerado "deus-encarnado" na religião judaica, nem parte de uma trindade divina – isto era considerado blasfêmia, heresia, profanação e idolatria, sendo absurdamente incompatível com a cultura deles. Consequentemente, a grande maioria de judeus repudiou completamente a Teologia Paulina, causando uma cisão definitiva entre judeus e cristãos. E o Império Romano perseguia tanto a um quanto ao outro, torturando-os, queimando-os, e matando-os durante os quatro primeiros séculos. Somente em 313 da e.c. que Constantino se converteu ao cristianismo primitivo e concedeu liberdade de culto a Roma, mandando construir a primeira igreja com seu próprio dinheiro. Em 325 e.c., no Concílio de Nicéia, Constantino tentou unificar o pensamento cristão e eleger alguns dogmas - tal como a doutrina ariana, que defendia a divinização de Jesus.  Em 330 e.c. a capital do império foi transferida para Constantinopla; e apenas em 380 da e.c.,Teodósio tornou o cristianismo uma religião estatal. A partir deste momento concretiza-se a maior usurpação religiosa da história: o carpinteiro judeu é transformado num deus romano, a Tanach é substituída pelo Novo Testamento, as sinagogas cedem lugar às igrejas, as raízes judaicas são extirpadas e recebem uma maquiagem helenizada, o povo judeu é desapropriado de suas riquezas e amplamente exterminado sob o trágico argumento de terem “assassinado o Filho de Deus” - e o judaísmo é transformado em cristianismo, dando início à tenebrosa Idade das Trevas.
Sob esta brevíssima e superficial perspectiva, já é possível perceber que o Jesus pregado pela igreja – seja ela Ortodoxa, Católica, Protestante ou Neoprotestante - tornou-se mais que uma mitificação progressiva e naturalmente mutante, mas uma fraude histórica a serviço do poder. Trata-se de um Jesus roubado, deturpado, forjado, recriado, folheado a ouro – desde a Patrística, Escolástica, Reforma – para ser forçosamente comprado por parcelas incultas da população. Todavia, esta conclusão não encerra a discussão sobre Jesus e aponta para infinitas outras problematizações históricas, culturais, religiosas, sociais, políticas, psicológicas e ontológicas - algumas das quais sugeridas no segundo parágrafo deste artigo - que necessitam de maior atenção, pesquisa e aprofundamento filosófico.